Presidente da CDL-BH fala sobre a retomada da economia na capital mineira – Revista Encontro

    53
    0
    superior pop

    Estado de MinasENTREVISTA

    (foto: Pádua de Carvalho/Encontro)
    (foto: Pádua de Carvalho/Encontro)

    À frente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL-BH), Marcelo de Souza e Silva foi crítico de boa parte das medidas da prefeitura para o enfrentamento da pandemia, em especial aquelas que tinham a ver com o funcionamento de estabelecimentos comerciais e de serviços. "Faltou diálogo", diz ele. "Primeiramente, achamos que o fechamento do comércio ocorreu muito cedo. Depois, podíamos ter aberto lá para maio de 2020 e, quando necessário, fechar de novo, por um período." Marcelo calcula que cerca de "10 mil CNPJs" tenham sido fechados nos últimos dois anos na capital mineira. Otimista, acredita que em uma recuperação do setor de comércio e serviços. Segundo ele, este ano o faturamento será maior, não só do que o dos dois anos anteriores, mas também superior ao de 2019, o ano antes da crise. Ele acredita ainda que há espaço para a aprovação pelo Congresso das reformas administrativa e tributária, apesar do ano eleitoral. "Mas temos de ficar muito atentos, porque nós queremos uma reforma tributária equilibrada e que ela seja justa", afirma. "Temos certeza absoluta que se reduzir a carga tributária, aumenta a arrecadação." Em sua gestão, o número de associados cresceu 20%, assim como o faturamento anual da CDL, atualmente em torno de 180 milhões de reais. Ele começou também uma reforma no prédio da avenida João Pinheiro e já entregou um novo auditório. Desde março, o espaço de exposições, também revitalizado, passou a integrar o Circuito Liberdade. Na entrevista a seguir, Marcelo fala de suas ações e diz que a cidade poderia estar mais bem cuidada e como isso ajuda – e muito – a economia.

    • Quem é: Marcelo de Souza e Silva, 56 anos
    • Origem: Belo Horizonte
    • Graduação: Formado em administração de empresas pela Fumec e em ciências contábeis pela Newton Paiva
    • Carreira: Lojista do ramo de presentes, assumiu a presidência da CDL em janeiro de 2019. Entre 2013 e 2016, na gestão do prefeito Marcio Lacerda, foi secretário municipal de Desenvolvimento Econômico e secretário da Regional Centro-Sul
    Revista Encontro – Agora que já passamos a fase mais crítica da pandemia, qual foi o impacto da crise para o setor de comércio e serviços de Belo Horizonte?
    Marcelo de Souza e Silva – O setor de comércio e serviços é essencial para Belo Horizonte. Nada menos que 72% do PIB de BH vem do comércio e serviços. Mais de 80% dos empregos são do setor de comércio e serviços. Como a nossa cidade ficou muito tempo fechada, agora estamos vendo os setores voltando, caminhando. O setor de eventos foi muito prejudicado, mas também as escolas particulares. Sempre digo que é importante ter a engrenagem toda funcionando para que o setor volte a funcionar plenamente.
    Pensando assim, o home office também é um fator dificultador?
    Sim. Porque a cidade precisa da movimentação das pessoas. O poder público, por exemplo, é um empregador muito grande e ainda hoje mantém muitas pessoas em home office, tanto nas esferas municipal, estadual e federal. Nós calculamos que cerca de 10 mil CNPJs foram fechados por causa da pandemia. Muitos desses estabelecimentos eram tradicionais e estavam em regiões importantes da capital. As ajudas que vieram dos governos foram importantes, mas muitas vezes não suficientes. Outra consequência foi o desemprego. BH emprega muita gente, não só daqui, mas da região metropolitana. É claro que em um primeiro momento o mais importante era cuidar da saúde. E as vidas perdidas foram muito mais relevantes. Mas agora, com o avanço da vacinação e a recente retirada das máscaras, temos uma sensação de segurança muito maior.

    “Nós precisamos de políticas públicas de desenvolvimento econômico. Com muita tranquilidade, digo que eu vejo isso forte no governo do estado e não na prefeitura de BH”

    Marcelo de Souza e Silva, presidente da CDL-BH

    A CDL criticou bastante o fechamento da cidade. Olhando em perspectiva que erros você enxerga nesse fechamento?

    Nós nunca deixamos de ter o mesmo pensamento do então prefeito Alexandre Kalil em relação à saúde, nós sempre falamos isso. Mas também tínhamos um pensamento a mais, que era a questão da economia, dos empregos, da renda das famílias. Faltou diálogo. No princípio da pandemia, montamos o grupo de trabalho, em que a CDL foi chamada a participar. Tínhamos uma tratativa muito boa, mas que se perdeu, por causa de posicionamentos diferentes. Primeiramente, achamos que o fechamento do comércio ocorreu muito cedo. Depois, podíamos ter aberto lá para maio de 2020 e, quando necessário, fechar de novo, por um período. No início da pandemia a CDL colocou mil faixas educativas na cidade, juntamente com a prefeitura e outras entidades. Criamos também o projeto "É Pra Já", em que atendemos mais de 2 mil empresas, cuidando, ajudando a discutir aluguel, a organizar contas, atentando para pontos da legislação que tinham mudado, principalmente a trabalhista. Também mostramos como buscar crédito, vender no digital… Então, esperávamos um diálogo maior. Acreditamos que, com diálogo, poderíamos ter ajudado, se não todas, muitas dessas 10 mil empresas que, segundo nossos cálculos, fecharam por causa da pandemia.
    Você assumiu no começo de 2019 e um ano depois veio a pandemia. Que lição ficou desse período?
    Aprendemos a cada dia. Nós tivemos de ajudar muita gente, no sentido de dar as mãos mesmo. Fomos lá na dor do associado da CDL. Vimos que em uma metrópole como Belo Horizonte os problemas não são resolvidos com o poder público isolado ou mesmo as entidades isoladas. Temos de unir forças, apesar de entendermos que a prefeitura tem de ser a protagonista. Esse foi um período de muito aprendizado.  Quando entrei na presidência, tínhamos 11,3 mil associados. Hoje, são 13,7 mil. Esse aumento de 20% no número de associados ocorreu pelo fato de conseguirmos defender nosso posicionamento na CDL, apesar de agirmos sempre com muito respeito, muito cuidado e muita cautela, porque estávamos em um momento muito delicado, durante a pandemia. Adquirimos um conhecimento muito maior dos problemas da cidade, assim como os problemas enfrentados pelos associados e não-associados. Crescemos mês a mês. Também notamos que mais associados usam nossos serviços. Isso é importante para, no final, levarmos soluções e agregarmos valores aos negócios dos nossos associados, para que eles consigam crescer, se desenvolver, gerar mais emprego e aumentar a renda dos trabalhadores. Esse é o nosso foco.
    (foto: Pádua de Carvalho/Encontro)
    (foto: Pádua de Carvalho/Encontro)

    Qual sua expectativa para 2022? Claro que tem de ser melhor que 2021, que 2020. Mas em relação a 2019, o ano antes da crise?

    Eu sou otimista por natureza. No comércio, as vendas estão crescendo de maneira bem positiva, tanto é que muitas empresas estão buscando novos empregados. Esse ciclo virtuoso eu acho que está começando a acontecer. A expectativa é que 2022 seja melhor que 2019. Na minha visão, a gente tem uma coisa que pode afetar um pouco, que é o ano político. O ano político realmente trava, porque o poder público deixa de fazer muitas coisas. Isso tira um pouco da movimentação da economia, porque o poder público é um movimentador importante. Eu queria abrir um parênteses aqui: só o pagamento em dia do funcionalismo público injeta em Belo Horizonte quase 1 bilhão de reais por mês. Na economia mineira são 4,9 bilhões. Quando você paga em dia, gera confiança, segurança para que esse funcionário possa ir às compras, podendo, inclusive, parcelar, confiando que não irá atrasar os pagamentos.
    O que falta por parte dos órgãos públicos?
    Nós precisamos de políticas públicas de desenvolvimento econômico. Com muita tranquilidade, digo que eu vejo isso forte no governo do estado e não vejo isso na prefeitura de Belo Horizonte. Essa é uma cobrança nossa. Uma cobrança no bom sentido, sem acusação. Nos dois feriados que tivemos em abril, a rede hoteleira do interior teve 95% de ocupação. Em Belo Horizonte, 45%.

    Como a CDL pode ajudar a mudar esse quadro?
    Nós fizemos recentemente uma parceria que está sendo o maior sucesso, para ocupar de forma diferenciada o Palácio das Mangabeiras. Implantamos lá o Parque do Palácio. Quanto mais lugares para as pessoas frequentarem em BH, mais eventos, mais movimento na cidade. Lá tem um bom restaurante, um bar na beira da piscina… O próprio palácio é um atrativo. Mas temos um problema. Você sai dali e vai na Praça do Papa, por exemplo, e ela está mal cuidada, com mato alto, suja, iluminação insuficiente.
    BH, na sua opinião, sofre pela falta de cuidado?
    Sim, sofre. E eu acho que não é só culpa da prefeitura, não. Mas como eu disse, a prefeitura tem de ser protagonista. Tem de dar o exemplo.
    Se a culpa não é só da prefeitura, quem mais é culpado?
    Eu acho que é também a própria população. As entidades veem o que está acontecendo e não buscam uma solução diferenciada. Não apresentam ajuda suficiente. A CDL sempre esteve pronta para ajudar, sempre participou. A CDL cuida muito da questão de segurança em Belo Horizonte. Um projeto nosso antigo, Olho Vivo, está aí até hoje, em parceria com a polícia civil, a guarda municipal, a polícia militar, o corpo de bombeiros. Nós todos temos de cuidar da cidade. Cada um tem de cuidar da sua porta, do seu quarteirão… Mas a prefeitura tem de puxar isso. A cidade precisa ser mais amigável, mais receptiva. Belo Horizonte virou hub. A pessoa vem para cá para ir para Inhotim, para Mariana, para Ouro Preto, para fazer outros passeios. Fica aqui um, dois dias, nem isso às vezes. A gente precisa dessas pessoas circulando, fazendo compras, conhecendo nossos centros comerciais.

    “Na pandemia, nós nunca deixamos de ter o mesmo pensamento do então prefeito Alexandre Kalil em relação à saúde. Mas tínhamos um pensamento a mais, que era a questão da economia”

    Marcelo de Souza e Silva, presidente da CDL-BH

    A pandemia mostrou a importância cada vez maior do e-commerce no ambiente de negócios. As empresas de BH estão preparadas para esse novo mundo?

    No Brasil, o e-commerce já é responsável por perto de 30% das vendas. Em Belo Horizonte chega a 18, 19% do total. É uma realidade que vinha num crescimento acanhado, mas que teve um desenvolvimento rápido na pandemia. Tivemos de correr para ajudar nossos associados. Fizemos uma parceria muito importante com o Sebrae. Quando você abre um site, você tem de cuidar dele 24 horas, tem de ter meios de pagamento ligados, tem de ter um controle de estoque muito forte. Há toda uma logística. O que estamos vendo hoje é muitos lojistas que já estão no digital, mas mantêm a venda física. É o que chamamos de multicanais de vendas.  O que nós estamos vendo hoje é lojistas que já migraram para o digital, mas mantém a venda física. São o que chamamos de multicanais de venda.
    A alta da inflação pode impactar negativamente no seu otimismo para com o crescimento a ser verificado neste ano?
    Pode. Inflação alta, juros altos, tudo isso são impeditivos para um consumo de qualidade. Ou melhor, de uma constância de consumo. Nós buscamos um consumo consciente. Esses são fatores que retraem o consumo. Mais uma vez, precisamos de políticas públicas adequadas. Precisamos das reformas, tanto a administrativa quanto a tributária. Nós fazemos agora, no dia 2 de junho, o Dia Livre de Impostos, que mostra o quão elevada é a nossa carga tributária.
    (foto: Pádua de Carvalho/Encontro)
    (foto: Pádua de Carvalho/Encontro)

    Mas você é otimista a esse ponto, de achar possível a aprovação de alguma reforma ainda este ano?

    Acho possível. Mas temos de ficar muito atentos, porque nós queremos uma reforma tributária equilibrada e que ela seja justa. O primeiro ponto a ser discutido é a redução na carga tributária. Temos certeza absoluta que se reduzirmos a carga tributária, aumentaremos a arrecadação. Hoje, muita gente sonega imposto para sobrevivência, porque não aguenta. Além da carga tributária elevada, a estrutura necessária para manter toda a complexidade dessa tributação é muito forte, é muito pesada. Quando eu falo que a reforma precisa ser equilibrada, eu quero dizer que ela precisa contemplar todos os setores produtivos. Não é diminuir muito para a indústria e pesar no comércio e serviços. O foco tem de ser uma reforma tributária equilibrada e justa, que tenha como objetivo a redução da tributação a todos nós.
    Você foi candidato a prefeito de BH nas últimas eleições. Ainda tem aspirações nesse sentido? Sai candidato a algum cargo no próximo pleito?
    Não, não. Minha candidatura foi um movimento que fiz porque estava convicto de que precisávamos de uma outra gestão em Belo Horizonte. Nossa capital, no meu entendimento, parou no tempo. Na gestão do prefeito Márcio Lacerda, eu fui secretário de Desenvolvimento Econômico e depois secretário da Regional Centro-Sul. Saí de uma secretaria estratégica para uma operacional. Isso me deu muita experiência e eu descobri que o meu perfil não é legislativo.

    source

    LEAVE A REPLY

    Please enter your comment!
    Please enter your name here